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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Falando De Gramática.



Ao analisar as redações de dois alunos dos anos finas do ensino fundamental I, notou-se que havia num dos dois textos muita expressão de ideias e pensamentos, mas sem a aplicação correta da gramática numa linguagem muito coloquial sem o uso correto dos pronomes, da concordância verbal, da concordância nominal e da regência. Ao contrário da outra redação, que tinha pouco conteúdo, numa linguagem simples, mas com a aplicação da gramática bem próxima da norma padrão.
Há uma dúvida entre professores quanto ao ensino da gramática.
O empasse é devido à afirmação de que o mais importante é o pensamento, a análise textual e a análise do contexto de uma ideia que se queira transmitir através da escrita, sem necessariamente usar a aplicação da gramática como processo de produção e compreensão do texto. 
Gramática, então, é o conjunto das normas estabelecidas para falar e escrever bem, num padrão definido pelos especialistas e estudiosos, tendo como base o bom uso da língua por célebres escritores. 
Pode-se notar, na produção dos escritores renomados, a beleza nos textos; tendo isso como base, é estabelecido como falar ou como escrever, dessa forma, temos expressões que soam bem ou mal aos nossos ouvidos.
Notadamente, quem sabe gramática, sabe dominar as normas da língua falada ou escrita. 
Se há diversas formas de usar o idioma, então de um lado temos a linguagem culta, de quem a priori conhece as normas de sua língua, do outro, a linguagem coloquial, de quem a priori, pouco conhece. Entretanto, até mesmo quem conhece bem a norma padrão comete desvios, porque a produção do texto falado ou escrito está sujeita à intenção do autor, ao propósito comunicativo, ao repertório linguístico do emissor e do receptor, às relações de poder, às condições de produção, ao próprio tema da mensagem que será, propriamente, o balizador da escolha das palavras. O local ou suporte da interação também trará implicaturas na produção textual.
Em suma, gramática são normas, regras, estruturas e elementos usados para a utilização da língua.
Há mais conceitos sobre gramatica: a gramática normativa, a gramática descritiva e a gramática internalizada.
A gramática normativa, como o próprio nome sugere, são normas e regras obrigatórias para o uso da língua, ela se torna a expressão das pessoas cultas e associa o bom uso da linguagem ao pensamento complexo.
A gramática descritiva: regras que são usadas de fato, descrevendo o que acontece no momento, identifica todas as formas de expressão, verifica quando e por quem são produzidas, regras que os usuários da língua usam no dia a dia, transmitindo a seguinte ideia: “é o que é”.
A gramática internalizada são regras que o falante domina, usos linguísticos com regras implícitas não decorrentes de instrução escolar.


O importante é que haja, na realidade, a adequação linguística ao momento, ao tema, ao suporte, ao receptor, ao ambiente, aos propósitos da comunicação.


terça-feira, 18 de julho de 2017

Minhas tardes com Margueritte | Análise pedagógica



Por Professor Natanael Almeida



“Germain é uma pedra bruta que se transforma em diamante”. 

No filme “Minhas tardes com Margueritte”, o personagem Germain tem uma história marcada pelo preconceito desde criança devido a sua aparência, sua inabilidade com a leitura e também por ser desajeitado ao falar. Na escola, a postura do seu professor só reforça em Germain o sentimento de que as letras (no sentido amplo) não tem nada a ver consigo, tendo ele ainda que lidar com o desafeto da sua mãe. Tudo isso criou em Germain a dificuldade de relacionamento. 

Mesmo com sua preocupação com as pessoas, ainda adulto, Germain sofre com os comentários maldosos de seus amigos, até que numa tarde encontra uma senhora na praça que adora ler. Ela então o convida para participar da leitura e diz que saber ouvir também é ler.

A explicação para a metáfora é a seguinte: mesmo que Germain tenha sido rejeitado pelo seu modo de ser desde criança pelos amigos, professores e até pelo desamor de sua mãe, ele tem o seu valor. O filme mostra a cena em que Germain tenta consolar uma amiga, mas por ser desajeitado com as palavras, ele só piora a situação. Vê-se na realidade que o personagem tem a melhor das intenções, falta-lhe repertório para exprimir-se adequadamente à situação. Através dos encontros de leitura e conversa com a senhora Margueritte, Germain toma gosto pela leitura, de forma que a paixão da sua nova amiga pelos livros, de uma certa forma o contagia, colaborando agora mais do que nunca para o seu letramento, não voltado somente para regras da língua e sim para a vontade de saber mais. Assim como se faz a um diamante que de início é uma pedra bruta antes de ser uma joia, Germain é lapidado através da literatura.

Marguerite mostrou a Germain que com os livros é possível viajar sem sair do lugar, apenas com um bom e velho livro mostrou a ele que ao apreciar a leitura, as coisas ao redor mudam, o jeito de falar, o modo de interagir, ou seja, a metáfora: “Germain é uma pedra bruta que se transformou em um diamante” mostra que antes ele era um homem bruto, mas com a ajuda de Margueritte acessa o mundo presente na literatura que transforma a sua vida.

"O dicionário para Germain"

Para Germain as palavras tinham apenas um significado. No seu ponto de vista o dicionário não servia porque havia palavras que ele conhecia e não estava no dicionário e as que estavam no dicionário não conseguia usá-las de forma correta. A amizade é reforçada quando Germain quer devolver o dicionário para Margueritte e ela revela que logo não poderá mais ler por causa de uma doença nos olhos que avança com a idade. Então ele decide aprimorar-se na leitura para ser o leitor de Margueritte devido ao grande afeto que crescia entre eles.

A transformação de Germain

A transformação em Germain foi após conhecer os livros. A mudança foi percebida pelos seus amigos, ele mudou o jeito de falar e de interagir. Já em Margueritte, percebe-se o quanto foi gratificante passar os seus conhecimentos e fazer com que Germain entendesse como a leitura é importante.Tanto Germain como Margueritte antes de se conhecerem estavam cada um na sua solidão, mesmo que rodeados de pessoas. Germain, com o desafeto de sua mãe e os escárnios de seus amigos, Margueritte no asilo e quando ia à praça só tinha a companhia dos pombos. A verdade que após os encontros de leitura na praça, um pôde preencher no outro as lacunas sentimentais neles existentes através da paixão pela literatura.

O professor (a) encorajador (a)

É sempre possível aprender. Não há idade nem momento certo para começar. O ser humano vive em constante aprendizagem, desenvolvimento e evolução, estando condicionado apenas aos estímulos exteriores para desenvolver competências e habilidades. Buscar o conhecimento é o melhor caminho para alcançar um futuro brilhante, e para que isso aconteça é preciso sair da “zona de conforto” e enfrentar os próprios medos, que são barreiras construídas para nos proteger das lembranças de más experiências vividas. Germain decidiu participar da leitura com Margueritte porque que ela transmitiu segurança a ele, encorajando-o a quebrar as barreiras que ele mesmo construiu devido aos traumas de infância.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

As tartarugas podem voar | Análise freudiana




O filme “As tartarugas podem voar” tem como pano de fundo a eminente invasão das tropas americanas no Iraque. A história se passa na fronteira entre o Irã e a Turquia. Um garoto que é chamado de Satélite assume a responsabilidade de liderança entre as crianças refugiadas a fim de que trabalhem desarmando minas terrestres americanas para vendê-las no mercado negro para conseguir alimento. Entre as crianças de várias idades, há muitas mutiladas devido à explosão das minas, algumas sem mãos, pernas ou braços.

O garoto Satélite não se destaca apenas pela sua liderança, mas também pelo seu esforço em tentar falar e entender a língua inglesa, fazendo principalmente o papel de tradutor das poucas palavras que entendia dos noticiários americanos. Todos permanecem em constante tensão. Satélite instala antenas e sintoniza os canais disponíveis a fim de que tenha informações sobre a guerra. Uma antena parabólica é instalada na casa dos principais do vilarejo.

Satélite se apaixona por Agrin, uma garota muito introspectiva que anda sempre na companhia do seu irmão Hengov, mutilado devido ao trabalho nas minas terrestres. Agrin e Hengov cuidam de uma criança com idade aproximada de 2 a 3 anos que todos a tem como irmão, no entanto no decorrer do filme descobre-se que na verdade o menino é filho de Agrin. Depois que seus pais foram assassinados, Agrin foi estuprada por soldados e ficou grávida prematuramente. Assim entendemos o porquê ela trata a pequena criança com desprezo e desamor, porque na verdade o menino representa a lembrança materializada bem ali na sua frente de todo o seu sentimento de terror, luto e perda irreparável causada pela guerra. Agrin tem a forte ânsia de sair daquele lugar e abandonar o seu filho a quem ela mesma o chama de bastardo.

Relacionando o texto “Mal-estar da civilização” de Freud ao enredo do filme, principalmente à personagem Agrin, percebe-se que ela a todo momento procura se livrar do sofrimento. Um sofrimento vindo do exterior. 

Freud diz que surge nos indivíduos a tendência de afastar do Ego (elemento que se apresenta como o “Eu” do indivíduo) sensações desprazerosas. São os chamados mecanismos de defesa.

Vê-se na personagem Agrin o isolamento pela dificuldade de relacionamento, pois tem que carregar a responsabilidade que lhe foi imposta (a de ser mãe) e ainda fazer que os outros acreditem que a criança é seu irmão, dessa forma ela se sente oprimida pela moral e pelas situações de privações impostas pela guerra. Numa tentativa de fugir da dor, Agrin afoga o próprio filho e depois se lança no precipício.


Freud afirma que a civilização é responsável pelas mazelas existentes e que seria muito melhor se retornássemos ao estado primitivo. A civilização produz a anticivilização. O sofrimento representado na história da personagem Agrin é consequência de um mundo dito civilizado onde a tecnologia com o apoio do capitalismo financiou a barbárie da guerra.

Sugestão de leitura: O Mal-estar Na Civilização - Freud, Sigmund



      

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Para refletir : Sociedade dos Poetas Mortos




As cenas do filme Sociedade dos Poetas Mortos retratam como é a vida dos alunos de uma escola conceituada no regime de internato, na segunda metade do século XX. Nessa instituição, é imposto aos alunos um controle no modo de se vestir e no modo de falar que sempre é de grande formalidade, deixando claras as posições hierárquicas entre estudantes e membros do corpo docente que seguem o modelo de interação social equiparado ora ao modelo militar, ora ao modelo religioso onde os alunos são vistos apenas como receptores totalmente passivos sem direito a questionar o conteúdo das aulas, muito menos as regras da escola.

Pode-se dizer que o modelo da escola apresentado no filme é extremamente tradicionalista, fruto de uma visão positivista, onde as matérias ensinadas são desconectadas do seu contexto de aplicabilidade, de forma que é questionável o aprendizado verdadeiro dos alunos nesse modelo que pressupõe o aluno apenas como ouvinte e recebedor de conhecimentos enciclopédicos.

O conflito se inicia no filme quando o professor de literatura Keating (personagem interpretada pelo ator Robin Williams) durante as suas aulas quebra os protocolos seguidos pelos demais professores com atividades que fazem os alunos refletirem sobre a  existência deles ajudando-os a encontrar o seu lugar no mundo e a sua própria voz. As atividades quase sempre são realizadas fora da sala de aula, pode-se até relacionar aqui, a título de exemplo, o modo como Sócrates ensinava seus discípulos, ao ar livre. O objetivo do professor Keating era permitir que os alunos encontrassem sentido no conteúdo proposto nas aulas de literatura a fim fazer uma conexão com a vida.

A prática do ensino contextualizado é bem avançada para o ano de 1950, visto que a instituição como um todo não concorda com os métodos do professor Keating chegando a demiti-lo, porque talvez houvesse nesses métodos um processo de libertação intelectual que é contra aos ideais do pensamento capitalista. O ensino baseado no positivismo é voltado para a técnica que é uma característica advinda da Revolução Industrial e pressupõe a prática de ensino de um para muitos.

O método usado pelo professor de literatura é considerado uma pedagogia alternativa, porque na sua forma de ensinar as aulas são de interação e de reflexão que procura fazer o aluno se encontrar fora do ambiente de submissão imposta tanto pelo internato, pela sociedade industrial, como pela a própria família que já decidia qual profissão seus filhos seguiriam, sem ao menos levar em consideração se eles concordam ou se identificam com o tal ofício visto como de sucesso.


Mesmo que o filme faça uma referência ao sistema de ensino do século XX, ainda se podem encontrar escolas tradicionalistas e quando não, professores autoritários que não reconhecem o ser humano histórico e atuante, e que a cada década tem-se um novo perfil de aluno que nasceu num outro perfil de sociedade. Realmente, nas relações aluno-professor e vice-versa há um conflito de gerações, por isso é necessário que profissional da educação se atualize constantemente e conheça outros métodos de ensino que suscitem nos alunos autonomia, interação e aprendizagem para a vida.



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